Gota

Escrito por Key Fujisaki | Atualizado em 17 de julho de 2020.

é fisioterapeuta, formada pela Universidade de São Paulo (USP), com intercâmbio na Universidade de Queensland – Austrália. Fez estágio no laboratório de pesquisa da School of Health and Rehabilitation Sciences da Universidade de Queensland no projeto “The effects of experimental knee pain in maximal voluntary extension force”.

Você pode encontrar Key Fujisaki no Youtube e Linkedin

A gota é um tipo de artrite causada pelo aumento de ácido úrico no sangue, e provoca dores na articulação, inchaço, vermelhidão e dificuldade para se locomover. Geralmente, a doença é identificada em exames de raio-X ou quando os sintomas são recorrentes. Já o tratamento é feito após a orientação de um especialista, que poderá indicar medicamentos, acompanhamento nutricional e palmilhas sob medida.

A gota também é conhecida como “Doença dos Reis”, pois, antigamente, era considerada uma condição específica das classes mais ricas da sociedade, que sempre estavam com a mesa farta de alimentos. Hoje, sabemos que a gota se desenvolve principalmente graças ao consumo excessivo de carne vermelha.

De acordo com o estudo “Recent advances in understanding and managing gout”, a articulação do dedão é uma das mais afetadas pela doença, já que 50 a 70% das primeiras crises de gota acontecem no local. Acredita-se que o excesso de carga imposto à articulação seja o principal fator prejudicial.

Para tratar a gota, a pessoa deve controlar a alimentação e usar medicamentos anti-inflamatórios. O acompanhamento médico é imprescindível para evitar a volta das crises. E, caso o tratamento não seja seguido à risca, a articulação acometida pode deformar. Quando a lesão atinge os membros inferiores, é comum que a pessoa com gota tenha dificuldades para caminhar.

Gota
Articulação com gota.

O ácido úrico é uma substância produzida naturalmente pelo organismo, como resultado da digestão da purina (um tipo de proteína presente em carnes, frutos do mar e alguns legumes). A purina é filtrada pelos rins e eliminada por meio da urina.

Devido ao aumento do consumo de alimentos com essa proteína, ingestão de álcool, falha no funcionamento dos rins ou pouco consumo de água, a taxa de ácido úrico no sangue aumenta. Quando ácido úrico entra em contato com o líquido lubrificante das articulações (líquido sinovial), pode haver a formação de cristais dentro da cavidade articular (espaço existente entre as superfícies articulares), o que causará a inflamação no local, conhecida como gota.

Geralmente, as crises de gota ocorrem em episódios isolados: o indivíduo sente, subitamente, fortes dores em alguma articulação do corpo (podendo estar acompanhada de inchaço, vermelhidão e aumento da temperatura no local) que tendem a sumir em 1 ou 2 dias sem deixar outros sintomas aparentes. Em alguns casos, o episódio pode voltar a se repetir após meses ou até mesmo anos. Quando não tratado, os episódios se tornam mais recorrentes e o sujeito pode apresentar uma deformação da articulação, com o surgimento de caroços, e a rigidez na movimentação.

CAUSAS

A gota é causada pelo aumento da concentração de ácido úrico no sangue. Entre os fatores de risco, podemos observar:

– Alimentação: o alto consumo de alimentos que favorecem a produção dessa substância pelo organismo, como carnes bovinas e frutos do mar, pode originar a doença. Esses alimentos contêm grande quantidade de purina (proteína que quando digerida se transforma em ácido úrico). O consumo de álcool também influência nos surtos de dor da gota, porque este componente aumenta a concentração de ácido úrico no sangue. A cerveja é a principal bebida alcoólica a ser evitada, por conta do malte, que contém purina na sua composição. Estudos observaram que o consumo de vinho moderadamente (1 taça por dia) não afeta o percurso da doença e pode ser até benéfico pelo seu efeito antioxidante.

– Idade: a gota tende a atingir adultos de 40 a 50 anos. Com o passar do tempo, os episódios podem ficar cada vez mais frequentes. Acredita-se que o envelhecimento dos rins seja o principal motivo da reincidência porque ele para de filtrar o sangue corretamente;

– Sexo: em geral, essa patologia é mais comum em homens, aumentando o risco de atingir as mulheres após a menopausa. Isso porque as mulheres no período fértil produzem maior quantidade do hormônio estrogênio, que auxilia no fluxo renal, responsável por eliminar o ácido úrico do sangue;

– Hereditariedade: a gota está ligada a fatores genéticos e pode ser transmitida através das gerações. Por isso, caso exista um histórico familiar da doença, é importante redobrar a atenção e diminuir o consumo de carne vermelha e álcool. Em casos de inflamação articular, não ligada a traumas, procure um reumatologista;

– Doenças e comorbidades: hipertensão arterial; hiperuricemia; obesidade; resistência à insulina; diabetes; insuficiência renal; doenças hemofílicas; psoríase e doenças mieloproliferativas, como a leucemia;

– Medicamento: principalmente os diuréticos, particularmente tiazídicos, pirazinamida, etambutol, ciclosporina, tacrolimus, e insulina em altas doses aumentam as taxas de ácido úrico sérico;

– Intoxicação: substâncias tóxicas (chumbo, por exemplo) interferem no funcionamento dos rins e na secreção de ácido úrico, levando a um tipo específico da doença, conhecida como gota saturnínica.

TIPOS DE GOTA

Existem dois tipos de gota:

1) Gota crônica: ocorrência constante de crises de dor, que geram inflamação em uma ou mais articulações;

2) Gota aguda: episódio repentino e isolado, com extrema dor e que geralmente atinge apenas uma articulação.

Em todos os casos, é importante fazer uma avaliação com profissionais especializados, pois o aumento de ácido úrico no sangue pode levar a maiores complicações, como o desenvolvimento de pedras nos rins e insuficiência renal crônica (com perda significativa da função dos rins).

SINAIS E SINTOMAS

Na maioria dos casos, os sintomas são agudos, repentinos e duram cerca de 12 a 24 horas. Geralmente, essa dor intensa tende a sumir após o segundo ou terceiro dia, deixando apenas um incomodo leve na articulação atingida. Alguns sinais da artrite gotosa são:

Intensa dor nas articulações, principalmente no momento da crise gotosa (que ocorre, sobretudo, durante a noite).

Caso alguma articulação do pé seja atingida, é comum encontrar dificuldade para a locomoção, o que estimula o ato de mancar. E, quando o tratamento não é feito, o desvio da pisada facilita o desenvolvimento de lesões em outras áreas, tanto no pé quanto no tornozelo e no joelho.

Vermelhidão e inflamação;

Queimação na área atingida;

Inchaço e possível formação de “caroços”, também conhecido como tofos;

Febre, pois é a forma como o organismo tenta se proteger dos cristais depositados na articulação;

Desconforto e rigidez articular, com dificuldade de movimentação da articulação atingida, principalmente de manhã ou após um grande período sem movimento.

TRATAMENTO

Antes de tratar, é fundamental o diagnóstico correto. Para isso, procure profissionais especializados, como reumatologistas. O diagnóstico tem base na análise do histórico familiar, na recorrência dos sintomas, e na alimentação e consumo de álcool. Imagens de raio-X podem revelar a existência de deformações articulares.

Nutrição
O tratamento contra a gota é baseado em uma reeducação alimentar e no aumento do consumo de água para evitar a formação de tofos (caroços) na articulação e cessar a repetição de crises dolorosas. Durante o tratamento, algumas medidas podem ser adotadas, como:

1) Diminuir o consumo de carne vermelha, feijão e frutos do mar;

2) Evitar a ingestão de soja, ervilha, caldos de carne e cogumelos;

3) Reduzir a quantidade de alimentos gordurosos, como sorvete e fritura;

4) Aumentar o consumo de água e eliminar as bebidas alcoólicas do cardápio;

5) Aumentar a ingestão de frutas.

Medicamentos
Na maioria dos casos, são utilizados medicamentos anti-inflamatórios para conter as inflamações nas fases agudas. Somente o médico pode prescrever a medicação anti-inflamatória ou analgésica que realmente irá aliviar as dores e diminur a inflamação.

Um dos principais medicamentos utilizados no tratamento contra a gota é o alopurinol. Essa substância é capaz de inibir o funcionamento da xantina-oxidase (enzima responsável por digerir a purina e produzir o ácido úrico) e evita o acúmulo de cristais de ácido nas articulações, o que diminui as chances de crises de gota. Ela somente poderá ser utilizada sob prescrição médica e deve ser alinhada com a reeducação alimentar.

Crioterapia
O gelo ajuda a diminuir a dor e a controlar a inflamação na fase aguda. Acredita-se que esse efeito é decorrente da diminuição da velocidade de condução nervosa, que aumenta a resistência do organismo e ameniza o incômodo. O frio também ajuda a evitar o edema e a controlar o metabolismo das células inflamatórias no local.

Repouso
O repouso é recomendado nas situações agudas da crise, em que a dor é muito intensa. Isso evita que a articulação acometida seja desnecessariamente forçada.

Ultrassom terapêutico
O equipamento pode ser utilizado nas fases agudas para auxiliar o controle de medicamentos anti-inflamatórios (fonoforese). Após a fase aguda, com dor intensa, o ultrassom pode ser utilizado para diminuir a rigidez articular e ajudar na reparação dos tecidos agredidos.

Mobilizações passivas
Nos casos de gota crônica, as articulações tendem a apresentar alterações de amplitude de movimento e de propriocepção, devido às crises sucessivas. A manipulação articular passiva pode auxiliar na recuperação da mobilidade, o que diminui a rigidez dos tecidos ao redor da articulação.

Trações manuais
Essa técnica deve ser utilizada após os períodos de dor intensa, mas com cautela. Ela melhora a nutrição da cartilagem e da membrana sinovial, o que beneficia a funcionalidade da articulação. Quando as crises na mesma articulação são frequentes, essa estrutura fica vulnerável às degenerações.

Palmilhas Personalizadas
Sabe-se que as pessoas com artrite gotosa apresentam dores recorrentes nos pés, devido à inflamação das articulações, principalmente na base do dedão. Em alguns casos, o processo inflamatório pode modificar até a forma de andar. Quando isso acontece, o recomendado é usar órteses para redistribuir as pressões plantares e evitar a inflamação.

PALMILHAS PÉS SEM DOR® PARA GOTA

As deformações causadas pela gota merecem atenção especial: elas aumentam a pressão articular em alguns pontos dos pés e podem intensificar as dores. A gota também pode contribuir para o desenvolvimento de outras doenças. Por isso, é importante usar palmilhas sob medida para redistribuir a carga inserida nos pés e evitar o agravamento da inflamação articular.

As palmilhas Pés Sem Dor são confeccionadas sob medida. Para quem tem gota, (as palmilhas) auxiliam no tratamento contra a doença porque redistribuem as cargas que chegam nos pés.

Palmilha sob medida Pés em Dor
Palmilha sob medida Pés em Dor

Na avaliação, são utilizados aparelhos como o baropodômetro, que identifica os pontos de maior pressão nos pés. Também se utiliza o escâner 3D, equipamento que auxilia a coleta de medidas para identificação do tipo de pé. No processo de desenho, é usado um software que puxa a imagem do escâner 3D e cria uma palmilha que encaixa perfeitamente nos pés. Dessa maneira, fica garantido que o peso seja redistribuído porque a área de contato entre o pé e o calçado é maior. Isso evita o acúmulo de pressões sobre a articulação do dedão – que é a mais atingida do corpo inteiro.

Por fim, para que a fidelidade ao desenho seja mantida durante a produção das palmilhas, a empresa utiliza a impressão 3D em filamento de TPU, o que garante também maior flexibilidade e resistência às palmilhas.

Palminhas de fibra de carbono
A empresa Pés Sem Dor possui também palmilhas fabricadas em fibra de carbono, um material bastante rígido e leve utilizado na produção de motos, carros e aviões. Essas palmilhas podem ser colocadas no sapato para evitar que o solado dobre. Dessa forma, evita-se as articulações do pé se movimentem, e, por isso, elas são indicadas durante os momentos de crise da gota, porque uma característica da doença é causar dor a cada movimento.

CALÇADOS

A gota atinge os pés com muita frequência, particularmente a primeira articulação metatarsofalângica (base do dedão), o tendão de Aquiles, o mediopé e o tornozelo. Pessoas com gota apresentam maior número de relatos de dor nos pés, deficiência e incapacidade, do que os indivíduos com as mesmas características de sexo e idade sem a doença.

Por isso, o cuidado com os pés e a escolha de um calçado adequado é importante para se evitar inflamações recorrentes. Evite sapatos de salto alto, pois eles aumentarão ainda mais a descarga de peso sobre a região mais acometida, o primeiro metatarso. Prefira calçados com um bom amortecimento no solado e de preferência com a ponta mais larga para que os dedos não sejam pressionados.

Evitar calçados apertados também é importante, para isso, verifique que há uma distância de pelo menos 1cm entre a ponta dos pés e a ponta do sapato, o que chamamos de wiggle room, esse espaço possibilita que a pessoa mova os dedos “livremente” enquanto caminha.

ESPORTES

Um estudo publicado no jornal americano de nutrição clínica mostrou que homens que corriam e eram fisicamente ativos apresentaram menor incidência de crises de gota quando comparados a homens menos ativos. Sabe-se que os exercícios ajudam na regulação dos níveis de ácido úrico no sangue e são parte fundamental do tratamento da gota.

Durante as crises agudas, o exercício deve ser bem controlado para que as articulações inflamadas não fiquem sobrecarregadas. Após o controle da inflamação, a atividade física deve ser parte da rotina para que episódios recorrentes da gota sejam evitados. Geralmente, quando bem acompanhada, a doença não gera grandes impedimentos para as atividades. Porém, quando não tratada, essa doença pode afastar completamente a pessoa do exercício, já que pode gerar até deformidade na articulação atingida.

DICAS CASEIRAS

Cuide de sua alimentação: evite consumir carne vermelha e frutos do mar em grande quantidade, pois quando esses alimentos são digeridos, eles se convertem em ácido úrico. Laticínios e frutas são liberados na dieta, pois possuem efeito protetor.

– Beba muito líquido: aumentar a ingestão de líquido diminui a concentração de ácido úrico no sangue e acelera o trabalho dos rins, responsáveis por eliminar as substâncias prejudiciais do sistema circulatório.

– Álcool com moderação: o consumo excessivo de álcool também pode aumentar a concentração de ácido úrico e favorecer o aparecimento das crises gotosas. A cerveja deve ser evitada, devido à alta concentração de purina (proteína que se transforma em ácido úrico) no malte. Se quiser beber, prefira o consumo moderado do vinho, pois seu efeito antioxidante pode reduzir o efeito do álcool quando o consumo não é excessivo.

– Mantenha-se ativo:realizar exercícios frequentes pode ajudar no controle da doença. Evite realizar exercício de alto impacto durante as fases de crise. Com a doença está bem controlada, não há contraindicações para exercícios.

– De olho na balança:indivíduos obesos têm mais chances de contraírem gota. Estudos mostram também a correlação entre a obesidade e o aumento da dor e incapacidade nos pés em pessoas com artrite gotosa.

LINKS EXTERNOS

1) Diagnosis and management of gout | NCBI

2) Intervenção Fisioterapêutica em um Indivíduo com Artrite Gotosa: relato de Caso | Acervo Saúde

3) The effects of commercially available footwear on foot pain and disability in people with gout: a pilot study | BMC

4) Functional and biomechanical characteristics of foot disease in chronic gout: a case-control study | Clin Bio Mech