Joelho Valgo e Varo

Escrito por Maria Morato | Atualizado em 24 de agosto de 2021.

é estudante de jornalismo e criadora de conteúdo da Pés Sem Dor. Escreve sobre patologias, saúde e bem estar no site e blog da Pés Sem Dor. Gosta de ler e conhecer lugares novos!

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O QUE É?

O nome valgo ou varo é utilizado para designar o mau alinhamento da articulação. No joelho, a mudança da angulação é medida pelo posicionamento entre o fêmur (osso da coxa) em relação à tíbia (osso da canela). Por ser uma articulação instável e que recebe muita carga, o desalinhamento dos joelhos pode levar a lesões sérias. Sabe-se que as dores na região do joelho estão diretamente relacionadas com o seu alinhamento. Quando não tradas corretamente podem levar a lesões mais graves de desgaste articular e a doenças como a artrose de joelho.

O desalinhamento pode ser apenas dinâmico, ocorrendo apenas durante a movimentação, e menos grave pois o tratamento é menos invasivo. Em casos mais sérios, esse alinhamento é comprometido mesmo com a pessoa parada, o que indica uma deformidade estrutural. Quando o ângulo entre a tíbia e o fêmur é grande o incomodo é intenso. Às vezes, cirurgias de correção podem ser necessárias para reduzir a dor.

Joelho Valgo (Geno Valgo)
O valgismo de joelho acontece quando a articulação desvia para dentro, aproximando um joelho ao outro. Popularmente conhecido como joelho em X, esse desalinhamento é mais comum que o varo, além de ser mais frequente em mulheres (por conta do quadril mais largo).

Durante a fase de crescimento, é normal que a criança ou o adolescente tenha um leve desalinhamento em valgo. Esse desvio tende a retificar com o desenvolvimento estrutural. Entretanto, quando se percebe que o desalinhamento está aumentando ou afetando alguma atividade do cotidiano, é importante levar a criança para uma avaliação com um médico. Durante a fase do estirão, as estruturas do corpo são bem maleáveis. Logo, as intervenções nessa etapa apresentam melhor resultado.

No joelho valgo, a descarga de peso na região lateral do joelho é maior, afetando o funcionamento ideal da articulação. Quando este desvio ocorre, aumenta-se o risco de algumas lesões como a Síndrome da Dor Femoropatelar, artrose, tendinites, hofftie e lesão ligamentar.

No valgismo é muito comum ouvir falar sobre o ângulo Q, uma medida angular que determina o grau do desalinhamento. Para determinar esse ângulo, utiliza-se a reta traçada entre o meio da tíbia (tuberosidade anterior) e o centro da patela como a reta traçada entre a região anterior do osso do quadril (espinha ilíaca anterossuperior) até o centro da patela. Os homens possuem ângulo Q entre 10º e 14º, devido ao quadril mais estreito, enquanto as mulheres apresentam uma abertura que pode variar entre 15º e 17º.

Ilustração de um um joelho valgo
Joelho valgo

Joelho Varo (Geno Varo)
No joelho varo a articulação está desviada para fora, o que aumenta o espaçamento entre um joelho e o outro. Popularmente é conhecida como Perna de “cowboy” pois parece que a pessoa que tem o desvio está montada em um cavalo. Esse desalinhamento é mais raro que o valgismo. Sua gravidade é determinada pela angulação do cruzamento entre a linha longitudinal da tíbia e do fêmur. Segundo o VeryWellHealth, um mal alinhamento aumenta o risco de desenvolver osteoartrite no joelho.

Imagem ilustrativa mostrando o desalinhamento em varo.
Joelho varo

Os bebês apresentam as pernas arqueadas ao nascer, devido ao processo de formação dos ossos, e isso não é um problema. A medida que ocorre a maturidade estrutural, as pernas tendem a alinhar na posição neutra, o que acontece próximo aos 2 anos. Após essa fase, as pernas das crianças começam a desviar para dentro (valgo), piorando quando elas estão próximas dos 4 anos. Depois disso, a tendência é que a angulação volte ao neutro progressivamente e que, aos 8 anos, esse desalinhamento seja bem sutil.

CAUSAS

– Genética: o desalinhamento articular está altamente associado a fatores genéticos. Uma vez que a evolução óssea de cada indivíduo é determinada geneticamente, o crescimento ósseo pode sofrer modificações, por conta dos fatores externos, ao longo da maturação;

– Doenças: em casos de modificação do metabolismo ósseo, como no raquitismo ou osteoporose, os ossos ficam mais frágeis e o próprio peso corporal pode influenciar no desvio das estruturas da tíbia e do fêmur;

– Pisada: os pés, tornozelos e joelhos sustentam nosso corpo. Quando alguma dessas articulações sofre um desvio, as estruturas relacionadas também sofrem modificações. A pisada pronada, aquela em que a articulação do tornozelo (subtalar) desvia para dentro, está diretamente ligada ao valgismo. Já a pisada supinada, tornozelo para fora, está mais relacionada ao varismo;

– Fraqueza muscular: a musculatura é fundamental para a estabilidade do joelho pois ela posiciona as estruturas ósseas. Quando ela está enfraquecida, a probabilidade de ocorrer um desvio na articulação é grande. Os músculos do quadril também interferem no posicionamento do joelho, uma vez que ajudam a alinhar o fêmur com a tíbia. Caso o fêmur sofra algum desvio, o joelho ficará mal posicionado. Normalmente, ocorre uma rotação interna do fêmur devido à fraqueza do glúteo, desalinhando os joelhos para dentro (valgo);

– Traumas: os tecidos sofrem modificações estruturais quando são atingidos por lesões prévias, ficando menos resistentes, o que favorece o desvio articular. A lesão do menisco também está relacionada ao avanço do desalinhamento e, muitas vezes, é necessário retirar essa cartilagem (menisco). Quando isso ocorre, o encaixe entre o fêmur e a tíbia fica prejudicado, o que leva à deformidade óssea.

Articulação do joelho lesionada
Região de dor

PREVENÇÃO E TRATAMENTO PARA JOELHO VALGO E VARO

O tratamento para joelho valgo ou varo está associado ao alinhamento estrutural e vai depender do grau de desvio entre o fêmur, a tíbia e a idade do paciente. Em desvios mais leves normalmente podem ser utilizados exercícios e dispositivos ortopédicos para correção, como palmilhas e talas, por exemplo. Em casos em que a angulação entre os ossos é maior, a cirurgia pode ser necessária.

Tratamento conservador

– Fortalecimento: uma musculatura flácida é incapaz de manter o joelho alinhado. Por ser uma articulação que recebe muita carga e que realiza movimentos de grande amplitude, a região fica mais instável. A musculatura é o único componente ativo da articulação, ou seja, pode ser acionada voluntariamente para alinhar a estrutura. Quando ela está enfraquecida, a sua contração é insuficiente para manter o posicionamento correto dos ossos. Desta forma, os joelhos podem desalinhar, causando o varo ou o valgo;

– Brace: o brace é uma joelheira que oferece maior suporte estrutural nas laterais, com opção de regulagem para limitar os movimentos do joelho. Alguns braces também podem ser adaptados para dar mais suporte na parte interna, evitando os desvios do joelho;

– Palmilhas e sapatos: sabe-se que uma pisada pronada ou supinada pode levar ao desalinhamento do joelho, pois as articulações estão diretamente ligadas. As palmilhas e sapatos sob medida cajudam a alinhar os pés durante a pisada e, consequentemente, proporcionam melhor alinhamento dos joelhos. Muitos estudos comprovam sua eficiência no tratamento de pacientes com desalinhamento de joelho;

– Controle muscular: além de ter uma musculatura forte, é importante saber quando a contrair. Essa ação, quando correta, estabiliza a articulação durante o movimento, evitando os desvios e, consequentemente, as lesões.

A melhora do controle muscular é trabalhada no esporte com o auxílio de um treinador. Os gestos esportivos têm maior intensidade e, por isso, sua execução precisa ser perfeita para evitar as lesões. Durante o treino, os movimentos são divididos em partes menores e trabalhados separadamente (no vôlei, por exemplo, quando é feito exclusivamente o treino de salto, depois o de bloqueio, etc). Quando todas as partes do movimento estiverem sendo realizadas corretamente, o treinador (ou o fisioterapeuta) começa a juntar as parcelas até o movimento ficar completo (seguindo o mesmo exemplo, o treino envolvendo todas as habilidades do atleta, precisando saltar, bloquear, sacar, etc).

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CIRURGIA

Tratamento cirúrgico

– Epifisiodese: este procedimento consiste em travar precocemente o crescimento ósseo de um dos lados da tíbia ou do fêmur, com o intuito de que o outro lado cresça alinhando a estrutura óssea. Só pode ser realizado em crianças de 8 a 12 anos pois é necessário que o paciente ainda possua a área de crescimento ósseo ativo.

No joelho valgo, as travas são posicionadas na região interna da extremidade superior da tíbia ou da extremidade inferior do fêmur. Para os joelhos varos, a mesma técnica é utilizada, porém as travas serão fixadas na região lateral dos ossos;

– Osteotomia: é um método um pouco mais agressivo, e realizado em pacientes adultos que já possuem a estrutura óssea consolidada. Nessa técnica, retira-se uma parte triangular do osso, com o formato de uma cunha, para corrigir o desvio. Outra opção é cortar o osso (tíbia ou fêmur) e reposicioná-lo na posição correta com placas e parafusos, preenchendo o espaço que ficou aberto com o tecido ósseo de outra região;

– Artroplastia: cirurgia que substitui parte da articulação (unicompartimental) ou a articulação completa (total) por uma prótese. Esse método é indicado para pacientes mais idosos e, particularmente, aqueles com necrose óssea ou grave desgaste articular. Em casos de desgaste grave, as cirurgias totais são mais recomendadas mesmo se apenas um dos lados estiver desgastado.

ESPORTES

Estudos comparando atletas com maior e menor desvio de joelho comprovou que quanto maior o desvio, maior são as chances de lesão na articulação. Por isso, as deformidades estruturais são cada vez menos comuns nos esportes profissionais. Com a profissionalização dos atletas acontecendo cedo, os desvios de joelho são acompanhados e tratados precocemente caso necessário.

Um dos atletas mais famosos pelos joelhos desalinhados foi Garrincha, o “Anjo das Pernas Tortas”. O atleta sofria de uma doença genética que causou a deformidade de seus joelhos para a esquerda, ou seja, o joelho esquerdo varo (para fora) e o joelho direito valgo (para dentro). Apesar do desalinhamento dos joelhos, Garrincha é considerado até hoje um dos maiores dribladores da história do futebol.

No esporte, o varo e o valgo dinâmico (que acontecem durante o movimento) são mais comuns, levando a lesões com necessidade cirúrgica. Alguns pesquisadores indicam que a doença atinge principalmente mulheres, por conta da diferença hormonal que deixa os ligamentos menos resistentes. Já outras pesquisas defendem que a grande incidência no público feminino é por conta do quadril mais largo, que leva a um aumento do ângulo entre o fêmur e a tíbia.

DICAS E CURIOSIDADES SOBRE JOELHO VALGO E VARO

Caso perceba um desalinhamento dos joelhos, o ideal é procurar um especialista para que ele consiga medir a angulação e detectar qual a causa. Lembre-se que, durante o desenvolvimento ósseo de bebês e crianças, o desalinhamento pode ser normal, mas na dúvida procure um profissional.Algumas medidas podem ser tomadas em caso de um desalinhamento mais leve. Veja abaixo:

Fortalecimento muscular
A musculatura é a única estrutura que pode ser modificada para oferecer maior estabilidade articular. Logo, realizar exercícios de fortalecimento é muito importante durante o tratamento conservador;

Flexão de joelho
Em pé, apoie-se em uma cadeira ou na parede. Mantendo o corpo ereto, flexione um dos joelhos, levando o calcanhar em direção à região posterior da coxa. Volte a posição inicial lentamente. Realize 3 séries de 10 repetições com cada joelho, 3 vezes por semana. Caso queira melhorar o ganho de massa muscular, coloque peso extra na região do tornozelo;

Extensão de joelho
Sentado em uma cadeira, estique uma das pernas alinhando o quadril, joelho e pés até que formem um ângulo de 90° com o tronco. Volte a posição inicial lentamente. Realize o movimento 10 vezes e troque de perna. Realize 3 séries de 10 repetições com cada perna, 3 vezes por semana. Para melhorar o ganho de força, coloque pesos no tornozelo;

Ponte
Deitado de barriga para cima, mantenha os braços apoiados na lateral do corpo, dobre os joelhos apoiando os pés no chão. Eleve o tronco mantendo a coluna e a pelve alinhada com os joelhos. Mantenha-se nessa posição durante 10 segundos e depois desça lentamente para a posição original. Preste atenção para que os joelhos não desviem para dentro ou para fora durante o movimento. Realize 3 séries de 10 repetições, 3 vezes por semana;

Agachamento
Sente na beira de uma cadeira. Leve o tronco para a frente e inicie o movimento para levantar. Preste atenção e veja se o seu joelho continua alinhado com as pontas dos pés. Volte à posição inicial lentamente.

– Para pessoas com joelhos valgos, alguns exercícios podem ser realizados para ajudar o alinhamento. Veja abaixo:

Abdução dos joelhos – força para separar os joelhos
Sentado, amarre um elástico de exercício unindo os dois joelhos. Faça uma força para abrir a perna separando os dois joelhos. Segure-os na posição por 10 segundos e solte lentamente. Realize 3 séries de 10 repetições, 3 vezes por semana;

Abdução de quadril – força para abrir as pernas
Deitado de lado, flexione levemente a perna que está em baixo e estique a de cima. Com a perna esticada eleve o pé, mantendo o alinhamento do tronco. Volte lentamente para a posição inicial. Realize 3 séries de 10 repetições com cada perna, 3 vezes por semana. Pode ser adicionado pesos extras à região do tornozelo para melhorar o ganho de força.

– Para pessoas com joelhos varos, aqueles com desvio para fora, outros exercícios serão mais recomendados. Veja abaixo:

Adução dos joelhos – força para unir os joelhos
Sentado, posicione uma bola (mais ou menos 20 cm de diâmetro) entre os joelhos. Aperte-a, segure a pressão por 10 segundos e solte lentamente. Realize 3 séries de 10 repetições, 3 vezes por semana;

Adução de quadril – força para fechar as pernas
De pé, prenda um elástico de exercício em algum lugar firme na altura do tornozelo. Depois, amarre o elástico no tornozelo. De um passo para o lado deixando o elástico esticado e as pernas afastadas. Com o peso sobre o pé sem elástico, faça força para unir as pernas vencendo a resistência do elástico. Realize 3 séries de 10 repetições com cada perna, 3 vezes por semana.

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LINKS EXTERNOS

1) Association between valgus and varus alignment and the development and progression of radiographic osteoarthritis of the knee | Wiley Online Library;

2) Effectiveness of a lateral-wedge insole on knee varus torque in patients with knee osteoarthritis | Physical Medicine and Rehabilitation;

3) Medial Knee Osteoarthritis Treated by Insoles or Braces: A Randomized Trial | Clinical Orthopaedics and Related Research;

4) Sex Differences in Valgus Knee Angle During a Single-Leg Drop Jump | Journal of Athletic Training;